Semiologia Investigativa ou A Ciência da Interpretação e Análise de Vestígios e Indícios

Introdução

Considero este artigo uma continuação autônoma dos assuntos tratados na minha resenha do livro “O Signo de Três”. Nos aprofundaremos no raciocínio abdutivo de Peirce, abordando a semiologia como método de análise através de exemplos simples. Também relatarei algumas de minhas primeiras investigações ocorridas antes de possuir registro municipal de Detetive Particular. Para maior entendimento deste artigo leia a resenha de “O Signo de Três” clicando aqui.

Parte Um: Semiologia e Navalhas Não-Monotônicas

The Doctor exhibited 1891 by Sir Luke Fildes 1843-1927
The Doctor, por Sir Luke Fildes

O uso dos sentidos como ferramenta científica é a técnica mais antiga de compreensão do mundo. Tal ferramenta que percebo como um pacote contendo abdução e semiótica, é o que chamo de Semiologia Investigativa. A semiologia é, no geral, a ciência que interpreta e analisa sinais, vestígios e indícios de um fenômeno. Na medicina, conhecida como semiologia médica, é o meio de se diagnosticar um paciente através da verificação de sinais e sintomas.  No Dicionário Google (2017) o termo semiologia possui três conotações: o da medicina e o de Saussure e Barthes, que focaram seus estudos na estrutura da cultura e linguagem. Leia abaixo.

1-Meio e modo de se examinar um doente, de se verificarem os sinais e sintomas; propedêutica, semiótica, sintomatologia; 2-Para Ferdinand de Saussure, ciência geral que tem como objeto todos os sistemas de signos (incluindo os ritos e costumes) e todos os sistemas de comunicação vigentes na sociedade; 3-Para Roland Barthes, estudo das significações que podem ser atribuídas aos fatos da vida social concebidos como sistemas de significação: imagens, gestos, rituais, sistemas de parentesco, mitos etc.

Independente da atividade o significado de semiologia é o mesmo, os resultados de sua prática em diferentes ocupações é que podem trazer diferentes nomenclaturas. Medicina, ciências forenses, direito, jornalismo, historiografia, artes, design, ilusionismo, psiquiatria, literatura, linguística, astronomia, física quântica, entre outras áreas, necessitam da semiologia. Como explicado na resenha do livro “O Signo de Três”, a semiótica, aqui semiologia, vale-se dos métodos científicos (dedução, indução e abdução), sendo suas preferidas a indução e abdução, também chamada de “inferência pela melhor explicação”. Seja qual for o critério de pesquisa, tem-se em mente o princípio de que a explicação mais simples geralmente é a correta na elaboração de hipóteses.

De todas as explicações possíveis para um fenômeno aquela que englobar todas as questões de modo menos extraordinário deve ser a correta. Este reducionismo ficou amplamente conhecido em filosofia e metodologia científica pelos escritos do frade franciscano Guilherme de Ochkam e seu princípio lógico, a navalha de Ochkam: “Se em tudo forem idênticas as várias explicações para um fenômeno, a mais simples é a melhor”. Meu exemplo preferido para ilustrar o uso da “navalha” são as pegadas de um animal equino no Rio Grande do Sul. A explicação mais simples é de que seja um cavalo e não uma zebra.

Considero também relevante para o raciocínio abdutivo dois tipos de conhecimentos: A priori e a posteriori. O primeiro trata-se de conhecimentos independentes do empirismo, ou seja, são conhecimentos inatos, intuitivos ou conclusivos por um simples exercício mental, como por exemplo, dois mais dois são quatro. O segundo só pode ser conhecido através da experimentação onde a obtenção de evidências leva à uma conclusão percebida pelos sentidos, como por exemplo, a neve é branca.

A intuição, embora não concretize um método completo e seguro para a observação, é válida para a lógica abdutiva em algo familiar ao observador. Na falta de evidências que apontem a uma proposição, conjecturas não-monotônicas surgirão a partir dos indícios disponíveis. O que seria uma conjectura não-monotônica? É aquela cujos elementos de um conjunto podem ser alterados, diminuídos ou aumentados por conta de uma nova informação que modifica o resultado. Muito comum na abdução novos indícios levarem a novas conclusões que contradizem as teorias anteriores, por exemplo, em uma investigação policial o principal suspeito é fulano, mas após a obtenção de novas evidências é impossível que fulano seja o responsável. Veremos a seguir mais exemplos de inferências.

Para saber mais: O Código Penal possui uma definição para o termo “indício”- Decreto Lei nº 3.689 de 03 de Outubro de 1941, Art. 239. Considera-se indício a circunstância conhecida e provada, que, tendo relação com o fato, autorize, por indução, concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias (fonte: jusbrasil.com.br).

Parte Dois: Contos Abdutivos

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“Nada é um sinal a menos que seja interpretado como um sinal”- Peirce

O visitante rotineiro

Um indivíduo espera seu visitante rotineiro com hora marcada e ouve passos do lado de fora de sua casa. Seu cachorro que costuma latir para estranhos, não late, e alguém bate à porta. O indivíduo conclui automaticamente que se trata de alguém conhecido, provavelmente seu visitante, pois o cachorro não latiu e a batida na porta coincide com a hora agendada para o encontro. Fatores extras que geram esta percepção podem ser a quantidade de visitantes costumeiros, o comportamento habitual do cachorro, local da residência, movimentação cotidiana externa à casa, data, hora e vizinhança. Estes fatores surgem na mente do indivíduo em sinapses de segundo, e para saber se seu julgamento está certo ou não, basta abrir a porta para comprovação.

A mamãe Munchausen

Uma mulher é interrogada pela polícia sobre a morte de seu segundo filho de um ano de idade por intoxicação. O primeiro filho faleceu há dois anos atrás, também com um ano de idade e pela mesma razão. Através de uma breve anamnese, descobre-se registros anteriores de familiares que levaram a criança com diarreia e vômito ao hospital. Agitada e contraditória, a mulher diz que levava seu filho ao hospital quando necessário, mas que podia cuidar dele muito bem.

O delegado chama um psiquiatra. O profissional descobre que ela é a responsável por ambas as mortes. A polícia achava que ela envenenava seus bebês aos poucos para que morressem, mas ela é diagnosticada com síndrome de Munchausen por procuração, transtorno onde o responsável pela criança, na maioria das vezes a mãe, causa danos à saúde da criança para que possa cuidá-la excessivamente. A intenção desta mãe nunca foi matar os filhos. Aqui o profissional utilizou da semiologia psiquiátrica.

Saída pela esquerda

Um veículo na mesma pista à sua frente liga o pisca para a esquerda, havendo uma entrada para outra pista alguns metros à frente em direção condizente com o pisca mencionado. Você infere que o motorista acionou a seta de direção propositalmente pela existência de uma rota que permite a entrada de veículos; e pelo pisca ter sido projetado para emitir um sinal aos demais motoristas sobre as direções do veículo. Sinais visuais funcionam pela capacidade cognitiva da mente humana em interpretá-los, pois se por natureza não tivéssemos tal capacidade outros meios de sinalização teriam sido inventados de acordo com o funcionamento mental.

O paciente de rosto amarelo

Um paciente entra em um hospital apresentando olhos e mucosas amareladas, relatando desconforto abdominal e urina escura. O médico lhe diz que são sinais de icterícia, um sintoma hepático ocasionado pelo acúmulo de suco biliar. Tendo-se captado os sinais e o sintoma, resta descobrir a provável doença através de exames, pois este é um quadro relacionado à várias enfermidades.

Perceba através destes exemplos, que existem sinais criados para comunicação humana (como o pisca de direção de um automóvel do exemplo anterior), e sinais que precisam ser descobertos e interpretados (como os sintomas de uma doença). Portanto, existem sinais cujo significado foi criado para ser “universal”, e sinais cujo entendimento carece dos pensamentos subjetivos do observador que precisa sistematiza-los. Este último requer conhecimento, pois hipoteticamente um mecânico não saberá inferir o transtorno mental de um paciente em uma clínica, nem o psiquiatra saberá inferir por que um motor estragou.

Parte Três: O Detetive Amador

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Vejo a investigação particular, a atividade de detetive, como uma ciência formal de detecção de características quase acadêmicas. Infelizmente no Brasil não é tratada desta forma, por possuir cursos profissionalizantes que, diria eu, até uma criança teria capacidade de fazer, formando “profissionais” incompetentes; pela lei 13.432 que contradiz a si mesma; pouco conhecimento da população pela profissão; preconceito das autoridades policiais (com razão visto os problemas citados); a ficção do gênero que projetou uma visão confusa na mente das pessoas e o fato da maioria das divulgações na mídia configurarem simples adultérios. E o detetive que auxiliou na investigação da mulher conhecida como “Serial Killer de animais” por matar 37 cães e gatos em São Paulo? E o que coletou dados sobre o assassinato de um padre na Paraíba?

Enfim, como dito na introdução deste artigo, os relatos a seguir são de antes de possuir alvará de Detetive Particular, portanto não descumpri nenhum regulamento ao descrevê-los. São relatos superficiais que não prejudicam a mim, os envolvidos (vítimas, testemunhas e autores) e a ética deste ofício, e para isso tive que omitir muitos detalhes. Em todos estes casos agi de acordo com minhas restrições legais como cidadão que conhece seus direitos e deveres, e não ultrapassei nenhum dos limites impostos pela lei.

A primeira investigação

Minha primeira investigação ocorreu aos meus dezenove (19) anos de idade. Um grupo comete um assalto agressivo. No dia seguinte um homem avista um dos pertences da vítima entre arbustos e o devolve, pois estava identificado. Após a devolução chego ao local onde o objeto foi encontrado, acompanhado da vítima. Ao observar o solo percebo que um dos objetos levados foi utilizado como assento por um dos assaltantes, pois havia marcas características deixadas no barro que possuíam o mesmo diâmetro (eu medi) e formato de parte do objeto, e sendo este leve demais para deixar qualquer marca, um peso extra foi adicionado quando o grupo sentado revistava os demais pertences, pois a estrutura superior do local era baixa, impedindo que ficassem de pé.

Deixaram um pouco de dinheiro, pela pressa, tensão e falta de iluminação no local. Meu próximo passo foi escolher dentre todas as ruas existentes qual teria sido usada para fuga dos assaltantes a pé, e seria aquela mais curta, com menor tráfego de pessoas e provavelmente a mesma em que vieram. Na rua escolhida noto a presença de câmeras de segurança em uma propriedade particular e peço permissão ao proprietário para checar as imagens, confirmando meus pensamentos anteriores. Pude medir a altura de alguns dos assaltantes comparando-os com cercas e galhos das árvores no ambiente.  Após pesquisa, eu e um companheiro identificamos a maioria. Descubro que alguns dias após o assalto eles desapegaram-se de algumas das próprias vestimentas usadas no ato. Com o material  colhido a vítima pôde complementar seu boletim de ocorrências.

O pedófilo cristão

Este começa “de trás para frente”, pois primeiro sabe-se quem é o agente, um pedófilo, e depois as inferências surgem. Inferências comportamentais. Importante ressaltar que tanto as individualidades de um sujeito quanto as  generalidades sociais são importantes na análise comportamental pois não se pode excluir o pensamento geral estatístico, visto o sujeito observado um fator emergente do meio em que vive. Este homem (com idade que não revelarei mas tinha entre 30 e 40 anos) gostava de aliciar meninas de 10 a 15 anos pela internet para encontros, com vocabulário “amoroso” e lascivo, pedindo fotos do órgão sexual e para ser o primeiro a manter relações. Não sei se chegou a cometer abuso físico realmente, embora tenha dito que praticou relações sexuais com uma menor, algo não comprovado.

Sua inteligência era pobre e exibia comportamento “divertido” não condizente com a idade, exatamente conforme o que se entende sobre pedofilia na literatura psiquiátrica.  Raramente vejo alguém tão imbecil e tantos imbecis ao redor que não percebem ou fingem não perceber que algo suspeito ocorre. Passava a impressão de humildade e de cristão de bom coração, enganando a muitos que o viam semanalmente na igreja. Fui ao Ministério Público juntamente com um conselheiro tutelar falar diretamente com um promotor de justiça, que sugeriu levarmos os dados à delegacia para maior averiguação. Agimos de acordo.

O motorista fantasma

Preciso identificar um veículo a partir de uma fotografia recheada de obstruções. A placa, a logomarca do fabricante e outras particularidades estão cobertas de um modo incrivelmente coincidente, pois as obstruções do ambiente e o veículo estavam naquela posição na fração de segundo em que a fotografia foi tirada, como se a realidade houvesse montado um quebra-cabeças. Era visível parcialmente a traseira do veículo, cor e ser um modelo hatch, com os seguintes pormenores: para-choque com relevo, limpador de para-brisa direcionado para lado tal, contorno da logomarca com formato tal, fechadura do porta malas no local tal, letras parciais e ilegíveis do lado tal e adesivos irreconhecíveis e parciais no lado tal. Eu e mais outros dois estudando a fotografia identificamos o tipo do veículo.

Deveria encontrar um veículo cuja única característica que o distinguia dos demais eram os adesivos irreconhecíveis e parciais no lado tal. Cinco dias depois vejo o veículo próximo ao local onde a fotografia foi tirada, pois prestei atenção aos carros similares que passavam, imaginando que pelo ato cometido pelo motorista ele não moraria longe, e tendo identificado o veículo coletei todos os dados possíveis. Este ato que não descreverei foi praticado outras vezes, tendo três ocorrências policiais registradas por três diferentes vítimas, todas mulheres (uma menor de idade). Uma rádio divulgou os acontecidos informando que o motorista foi indiciado por contravenção penal  ofensiva ao pudor.

Aquele não resolvido

Neste caso não encontrei solução, apenas uma teoria da melhor explicação. Importante mostrar que nem todas as situações apresentam objetos de análise que levam à resposta, sendo o observador dependente das informações contidas nas premissas. Dito isto… Um cão de raça de grande porte sai de casa às 05:00h da manhã de domingo para fazer necessidades no quintal, um imenso sítio; corre em direção a um matagal próximo à casa de um vizinho, ouve-se um som de estalo muito alto e latido de dor. Os demais cães latem para este lado e uma busca é realizada, mas o cão desaparece por cerca de uma hora. É encontrado nos fundos da casa falecido e sem ferimentos externos.

Não pude verificar o corpo pois já havia sido enterrado. Os donos suspeitavam de enforcamento pois o cão apresentava língua protusa, rigidez muscular e membros apontando para a região inferior/posterior do corpo, posicionados como se o cão tivesse ficado suspenso por muito tempo. Porém não havia sinais de petéquias conjuntivas ou danos ao pescoço, sendo a rigidez apenas o rigor mortis e a língua protusa comum, então duvidei da teoria do enforque. Penso que se a morte foi criminal o autor já teria uma certa idade, pois improvável que alguém jovem estivesse acordado às 05:00h da manhã de um domingo, algo mais comum à pessoas mais velhas. Então o autor seria um homem com mais de quarenta e cinco anos. Um professor do curso de Psicologia me sugeriu que a morte foi ataque cardíaco ao correr, comum em cães desta raça.

Segundo o veterinário, ele possuía coração fraco. Pesquisei sobre tanatologia, juntei a teoria do ataque cardíaco com o ambiente rural do ocorrido e o som alto de um estalo. Já havia pelos arredores o boato de tiro por arma de pressão na boca, mas assim não haveria o grito de dor; haveria ferimento; além da dificuldade de mirar na boca do animal, entre outras coisas. Penso que eletrocussão encaixa em tudo. Pesquisando sobre, crio a teoria da cerca elétrica clandestina. O cão ao chocar-se com o rosto e peito na cerca ilegal ocasiona o som do estalo elétrico, tendo ou não um ataque cardíaco, falece e o proprietário da residência que continha o matagal (um homem que como teorizei tinha mais de quarenta e cinco anos) já acordado ou acordando com o som tenta ajudar o cão, mas falha, o esconde e retira a cerca danificada.

Com dó, após um tempo desloca o animal aos fundos da casa dos donos para que seja encontrado. Conversamos com este homem, que disse estar acordado, ouviu o latido de dor e nada mais. Com minha teoria um dos donos me diz que este homem possuía uma cerca elétrica ilegal em sua horta em algum momento. Também me mostrou que outra casa em direção contrária aquela e mais distante dali possuía o mesmo tipo de cerca, comum naquela região. Se minha teoria estiver certa inferi que o homem manteve uma cerca elétrica que ocasionou a morte do cão. Se minha teoria estiver errada, estranhamente adivinhei que o homem manteve uma cerca elétrica em algum momento, e outra coisa causou a morte do cão.

As teorias anteriores, enforque (impossível) e tiro por arma de pressão (improvável) implicam que alguém tinha más intenções. Escolhi a teoria do choque com a noção mais simples de que acidentes acontecem, e esta não possui fatos encontrados que a excluam, sendo ela a que engloba mais elementos e que melhor explica o evento sem levantar tantas questões. Deixei escapar algo que mudaria o rumo da teoria? A história formada em minha mente condiz com a realidade externa? Embora eu perceba esta como a melhor explicação possível, uma teoria é inútil sem comprovação. De fato, não pude verificar o corpo, e nunca vi a tal cerca. Não sabemos até hoje a causa da morte.

Alvará

Parte Quatro: Informações Adicionais

Alguns nomes da Semiologia

  • Charles S. Peirce, semioticista e matemático, fundou o Pragmatismo
  • Carlo Ginzburg, historiador, cunhou o paradigma indiciário e micro-história
  • René Laennec, médico pneumologista, inventou o estetoscópio
  • Sigmund Freud, psicanalista, buscava os sinais ocultos do inconsciente
  • Joseph Bell, médico, inspiração para o personagem Sherlock Holmes
  • Edmond Locard, pioneiro das ciências forenses e laboratório forense
  • Umberto Eco, escritor, filósofo, linguista e semioticista
  • Guilherme de Ochkam, frade e filósofo, conhecido pela navalha de Ochkam
  • Giovanni Morelli, crítico de arte, criou método para identificar falsificações

Fontes:

Appel

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