Livro: Serial Killers: Louco ou Cruel?

  • Serial killers: Louco ou Cruel?
  • Ilana Casoy
  • Editora DarkSide
  • Ano 2014
  • 360 páginas

Resumo

Ilana Casoy é criminóloga e especialista em serial killers. Entrevistou diversos assassinos brasileiros e auxilia a polícia em casos de homicídios em série. É a vida que eu gostaria de ter. Ilana nos trás a visão da Psicologia e do Direito sobre este tipo de crime, e choca ao contar as terríveis histórias reais dos serial killers mais famosos do mundo.

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Ilana e sua box de livros da editora DarkSide, com os títulos “Serial Killers: Louco ou Cruel” e “Serial Killers: Made In Brazil”

O comportamento criminoso

“A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições que ela impõe. […] É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura”. – Sigmund Freud

Esta frase abre o primeiro capítulo, e mesmo não sendo fã do pai da psicanálise admito que dificilmente outra citação resumiria tão bem a proposta das páginas que viriam a seguir. O comportamento desviante é uma resposta ao ambiente e as limitações nele impostas. As regras sociais que hoje vivenciamos são absorvidas e praticadas por aqueles chamados “normais” que podem viver adaptativamente em sociedade. Os que não podem, e estes existem em todas as diferentes sociedades, são discriminados de algum modo.

A evolução cultural, moral e tecnológica de uma sociedade carece da evolução do homem, que para tornar-se civilizado como hoje é, dependeu de fatores de sobrevivência. O ser humano começou a andar em grupos, o que ocasionou laços emocionais e assim os comportamentos foram adaptados para se viver em coletividade. A estrutura cerebral também se modificou, desenvolvendo-se o neo-cortex, e os seres humanos passaram a controlar seus instintos agressivos, impulsivos e sexuais, tornando-se cada vez mais sociáveis.

Para saber mais: o sociólogo Émile Durkheim (1858-1917) percebeu que certas atitudes antes consideradas banais se tornariam tão imorais que configurariam crime após um período de evolução de uma sociedade. O homicídio consiste no ato menos tolerável, pois priva o ser humano da existência. Quanto mais uma sociedade evolui, mais rígidas se tornam suas normas penais (Wikipédia-Émile Durkheim).

Os tipos de serial killers

Temos então o neo-cortex, e mesmo assim nos tempos modernos homens aparentemente tradicionais tornam-se bestas assassinas incógnitas. Eles não possuem as mais clássicas motivações para matar, como dinheiro, vingança ou amor, apenas saciam seus desejos. Questões genéticas, psíquicas ou psicológicas explicam tal motivação? Se nos guiarmos pela citação de Freud, o comportamento agressivo surge nos conflitos internos do indivíduo. Vamos tentar entender os serial killers. Segundo o livro de Ilana, existem quatro tipos:

  • Visionário: insano e psicótico, possui alucinações visuais e ou auditivas. É o clássico “as vozes me mandaram fazer”;
  • Missionário: socialmente aparenta ser uma pessoa comum, mas em seu interior sente a necessidade de livrar o mundo da imoralidade. Determina um grupo para matar, como prostitutas, homossexuais, mulheres ou crianças;
  • Emotivo: tem prazer em matar, diverte-se ao matar com crueldade e obtém prazer ao planejar seus crimes;
  • Sádico: mata por desejo e para satisfazer sua sexualidade, cujo prazer depende do nível de sofrimento que causa à vitima. Canibais e necrófilos estão neste grupo.

Também são divididos nas categorias “organizados” e “desorganizados”.

Como exemplo de organizado temos o Zodíaco, que atuou na Califórnia ao final dos anos 60 enviando cartas criptografadas aos jornais revelando detalhes de seus crimes e desafiando a polícia. Utilizou de pistola e faca nos assassinatos. Pelo modo que matava provavelmente teve treinamento militar. Na época o número de suspeitos chegou a 2.500. Sua identidade é desconhecida.

Como exemplo de desorganizado temos Richard Trenton Chase (1950-1980), também na Califórnia. Um psicótico que esfaqueava e mutilava, bebia sangue e cometia canibalismo. Para citar um caso, em 1978 o corpo de uma mulher foi encontrado com o torso aberto, mamilo esquerdo arrancado, alguns órgãos para fora do corpo e fezes de animais dentro da boca. Pegadas de sangue cobriam o chão. Quando capturado, Richard afirmou que seu sangue viraria pó se não bebesse o sangue das vítimas e que era perseguido por nazistas, que o envenenaram através de um sabonete.

As vítimas dos serial killers

Podem ser aleatórias a depender do quão conveniente é aquele momento ou ser algum estereótipo na mente do assassino, que para ele representa uma simbologia inerente a sua psiquê. Como exemplo de serial killers com vítimas-padrão temos Ted Bundy, que atacava mulheres morenas com cabelos repartidos ao meio, todas semelhantes fisicamente à sua ex-namorada. Também temos Ed Kemper, “O Assassino de Colegiais”.

Após a morte da vítima o serial killer entra em um estado de desânimo, depressão ou fúria e sente uma necessidade, eu diria que instintiva, de atuar novamente. As vítimas na visão do assassino são objetos de sua fantasia sádica. No geral escolhem pessoas de porte físico frágil e pertencentes à grupos menos beneficiados, como prostitutas e sem tetos, pela demora da população e da polícia em perceber seu desaparecimento. Por não conseguirem manter intimidade com outro ser humano naturalmente, um ritual sádico como o abuso sexual é a única maneira de demonstrar seu íntimo, seu lado secreto que ninguém mais além da vítima conhece. Exemplos de serial killers carentes por intimidade?

Jeffrey Dahmer buscava o parceiro sexual perfeito lobotomizando homens que encontrava em bares, injetando ácido em seus cérebros na tentativa frustrada de criar um estado vegetativo. Canibal e necrófilo, esquartejava os corpos e guardava em seu apartamento. Dennis Nilsen também mantinha o corpo de suas vítimas em um apartamento com objetivo de necrofilia. Não suportava que após acordar pela manhã, os vivos fossem embora deixando-o sozinho. Os mortos nunca vão embora.

Para saber mais: “O Autor do Crime Perverso”, da psicanalista Marie-Laure Susini, que relata alguns casos famosos como Landru, Guilles de Rais e Marquês de Sade, além de sua experiência de dez anos num serviço hospitalar para doentes perigosos.

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O Autor do Crime Perverso, Marie-Laurie Susini, editora Companhia de Freud, ano 2006, 240 páginas

Traumas físicos e psicológicos

Muitos apresentam na infância a chamada “terrível tríade”:

  1. enurese noturna (urinar na cama)
  2. tortura de animais e outras crianças
  3. dano à propriedades e piromania

Outras características incluem masturbação compulsiva, isolamento, mentiras excessivas, rebeldia, delitos, personalidade autodestrutiva. Cerca de 82% dos serial killers sofreram abusos, seja sexual, físico ou psicológico e muitos tornam-se molestadores de crianças. Existe uma diferença entre este tipo e o pedófilo, pois o pedófilo possui uma desordem psicológica, causando-lhe a preferência específica por crianças. O molestador não necessariamente possui tal preferência e pratica o ato por outras motivações, podendo ser uma delas a continuação do ciclo de abusos sofridos por ele durante a infância.

De acordo com o livro, uma pesquisa administrada pelo professor de psicologia Adrian Raine da Universidade do sul da Califórnia mostrou que 21 homens com histórico criminal possuíam uma quantia inferior de matéria cinzenta no lobo pré frontal. Indivíduos anti-sociais e impulsivos apresentam 11% menos matéria cinzenta que o considerado normal. Deste modo, estes indivíduos apresentavam uma predisposição ao comportamento violento, mas seriam os fatores ambientais que engatilhariam essa violência “adormecida”. Lesões no hipotálamo, lobo temporal e sistema límbico também podem alterar o nível de controle da agressividade e sexualidade no sujeito.

Para saber mais: o documentário Child of Rage, ou A ira de um anjo, conta a história de Elisabeth Thomas, uma menina de seis anos de idade que torturava seu irmão mais novo e idealizava a morte dos pais adotivos. Elisabeth sofreu severos abusos quando bebê.

Para saber mais: temos na história da Psicologia o famoso caso de Phineas Gage, que após sobreviver a um acidente o qual uma barra de metal atravessou sua cabeça, tornou-se extremamente agressivo.

Construindo um perfil criminal

O perfil criminal se baseia no tipo de crime e como foi cometido. Através da observação de indícios do local do crime se deduz o comportamento do criminoso, a personalidade, estado psicológico e psiquiátrico, tipo físico, profissão e relações sociais. O livro explica que de acordo com o professor de Administração de Justiça da Universidade de Louisville, Ronald M. Holmes, perfis psicológicos são apropriados apenas em crimes que demonstram uma psicopatologia, crimes extremamente violentos ou ritualísticos. Creio que tal pensamento se dá pois, em crimes mais simples, que constituem de poucos indícios, nada se pode inferir sobre a mente do criminoso. Veremos as correntes de profiling criminal relatadas no livro e como elas funcionam:

  • Psicologia Investigativa, de David Victor Canter: frequentemente a vítima representa alguém no passado do criminoso (como sua mãe ou ex-namorada, por exemplo); local e horário escolhidos podem indicar uma rotina de trabalho e lugar onde mora o assassino; se a partir da cena do crime sabe-se que o criminoso possui conhecimentos forenses ou técnicas policiais para modificar a cena do crime a seu favor.
  • Análise das Evidências de Comportamento, de Brent Turvey: uma evidência pode ter várias interpretações, devendo o investigador buscar informações não apenas no local do crime mas em relatos de testemunhas, no trajeto da vítima, em relatórios, na necropsia; vitimologia, buscando-se compreender por que a vítima foi escolhida e como o criminoso agiu com ela; a cena do crime pode apontar aspectos acerca do criminoso; após a coleta de dados deduz-se características do autor, aspecto físico, hábitos, habilidade e histórico criminal.

Os serial killers de Ilana Casoy

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Jeff Dahmer, Albert Fish, Ed Gein, Ted Bundy e Chikatilo
  1. Paul Bernardo e Karla Homolka
  2. Ted Bundy
  3. Richard Trenton Chase
  4. Andrei Chikatilo
  5. Rory Enrique Conde
  6. Jeffrey Dahmer
  7. Albert Fish
  8. John Gacy
  9. Ed Gein
  10. Ed Kemper III
  11. Ivan Robert Marko Milat
  12. Leonard Lake e Charles Chitat NG
  13. Dennis Andrew Nilsen
  14. Arthur Shawcross
  15. Aileen Wuornos
  16. Zodíaco

Por fim

Ilana Casoy  efetuou extensa pesquisa para a construção desta obra, aprofundando-se em todos os detalhes possíveis. Muitas destas histórias me exigiram uma pausa de um ou dois minutos durante a leitura para refletir sobre os horrores que eu estava lendo. Como escrito na contracapa, o livro “[…] nos apresenta histórias que nem a ficção e o cinema conseguiram imaginar”. Devo destacar a importância deste tipo de leitura para o conhecimento acerca da maldade humana. É uma tipologia criminal rara, mas existe.

O tema “serial killer”, muito usado na história do cinema surpreende e prende a atenção de todos. Para uma maior e real compreensão deste tipo de criminoso, um livro escrito por uma especialista trás toda a verdade e quebra muitos mitos. Só me resta continuar tentando compreender a mente destes assassinos perversos, desta vez serial killers brasileiros, com a leitura do livro “Serial Killers: Made In Brazil”.

Para saber mais: entrevistas com Ilana Casoy

Appel

 

 

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