Livro: O Signo de Três

  • O Signo de Três
  • Umberto Eco e Thomas A. Sebeok
  • Editora Perspectiva
  • Ano 2014 (primeira edição em 1991)
  • 243 páginas

Resumo

Sherlock Holmes, o mais famoso detetive da ficção, criado por Arthur Conan Doyle. Charles Sanders Peirce, o pai da semiótica moderna. Auguste Dupin, o primeiro detetive da literatura, criado por Edgar Allan Poe. O que estes três tem em comum? O livro segue pelos caminhos do método abdutivo sob um olhar semiótico, baseando-se nestes três grandes nomes. O título desta obra tem como referência o romance “O Signo dos Quatro”, de 1890.

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Estas figuras são exemplos semióticos, pois mesmo sem haver qualquer palavra, em alguns segundos você percebe o que a imagem ao todo significa.

O que é semiótica 

Para que este texto rume à uma direção coerente, antes de repassar-lhes meus pensamentos sobre o livro, é preciso que alguns pontos sejam explicados, para que, com o decorrer desta leitura,  estejamos familiarizados com os tópicos. O que é semiótica? Ou, qual minha maneira de perceber a semiótica?

A semiótica, sendo uma área epistemológica e fenomenológica, estuda a representação dos objetos de significação. A representação de um objeto pode ser uma imagem, uma palavra, um desenho, uma mancha, uma ação, um fenômeno físico. A significação seria a impressão projetada na mente do sujeito pela representação do objeto. O objeto e sua representação fazem parte do mundo externo, ou seja, a realidade, enquanto a significação faz parte do mundo interno, a mente do sujeito.

A semiótica estuda os signos (não confunda com signos do zodíaco). Os signos são coisas que significam coisas. Por exemplo: Se há fumaça, há fogo. O pensamento dedutivo “se há fumaça há fogo” necessita de um conhecimento a posteriori da parte do sujeito, ou seja, ele precisa ter vivenciado um fenômeno semelhante para associar a fumaça ao fogo.

Outro exemplo: Pegadas em forma de cascos no solo são indícios de que um animal equino passou por ali. Estando no sul do Brasil, imagina-se que tal animal é um cavalo e não uma zebra, por probabilidade. Neste caso, a significância abrange não apenas o objeto (cavalo) causador da representação (pegada), mas também geografia e cultura.

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O que a primeira figura representa? E a segunda? E a terceira? E o conjunto todo?

O desenho de duas linhas retilíneas paralelas na vertical com três linhas retilíneas paralelas na horizontal entre as duas primeiras linhas formam a representação de uma escada. Se ao lado desta representação da escada estiver a foto de um gato preto, e ao lado desta foto, cacos de um espelho quebrado, em conjunto estes três itens representam, segundo a cultura popular, o azar. Temos então itens que vistos de modo individual não representam nada além daquilo que realmente representam: uma escada, um gato preto e cacos provenientes de um espelho quebrado. É preciso um sujeito interpretante para dar uma significância lógica que vá além dos próprios objetos, neste caso, o azar. Estes exemplos se assemelham aos métodos estudados por Charles Sanders Peirce, pai da semiótica moderna, e utilizados por Sherlock Holmes, o mais famoso detetive da ficção policial.

Um Estudo em Vermelho

Em “Um Estudo em Vermelho”, Holmes investiga o homicídio de Enoch Drebber, encontrado morto em uma casa desabitada em Lauriston Gardens. Após analisar a cena do crime, Holmes se volta aos outros detetives: “O assassino é um homem. Possui mais de 1,80 m, é jovem, pés pequenos para sua altura, usava botas grosseiras de bico quadrado e fumou charuto Trichinopoly. Chegou com a vítima em uma carruagem de quatro rodas, puxada por um cavalo de três ferraduras velhas e um nova, na pata dianteira direita. Possivelmente, o assassino tem rosto vermelho, e unhas da mão direita longas. São apenas alguns indícios, mas podem ser úteis”. A seguir faremos uma breve reconstrução de algumas, e não todas, destas abduções.

Chegando na cena do crime, Sherlock Holmes percebe marcas de uma carruagem no barro em frente à casa, e sabendo que choveu apenas na noite anterior, pode-se limitar o tempo do ocorrido. A bitola estreita das rodas sugerem ser de um carro de aluguel. As marcas das patas do cavalo sugerem que este ficou a espera do cocheiro por algum tempo. Percebe então dois pares de pegadas em direção a casa, sendo um par de botas de bico quadrado e o outro com sapatos elegantes.  As botas de bico quadrado pertencem a um homem jovem, pois transpõem uma poça d’água de um metro e vinte, enquanto as outras pegadas contornam o obstáculo. Um homem é alto e jovem, o outro veste-se com elegância.

Encontrando-se com Lestrade (detetive da Scotland Yard), Holmes questiona se alguém chegou em carruagem de aluguel naquela manhã. Lestrade diz que não, confirmando a hipótese de que os dois homens vieram na carruagem, sendo um dos homens o condutor, pois onde mais iria o condutor, deixando o veículo sozinho a noite? Holmes adentra a casa e vê o corpo, confirmando que se trata do homem bem vestido, sendo o condutor então o assassino. A boca do cadáver exala um odor acre, o que sugere envenenamento. Na parede havia escrito em sangue com caracteres góticos a palavra “rache”, que significa “vingança” em alemão.

A vítima intacta em ambiente sem sinal de luta sugere que o sangue pertence ao assassino. Sabendo que pessoas de compleição sanguínea sofrem de sangramentos em momentos de grande emoção, deduz que o assassino é robusto e de tez corada. Por haver no cômodo pegadas que indicam passos cada vez mais largos, deduz o tamanho do assassino e que este estava em grande agitação. A altura da escrita em sangue na parede auxilia na medição da altura do homem, pois instintivamente escrevemos na altura dos olhos. Terminaremos aqui a descrição para poupar o divertimento daqueles que ainda não leram a história.

O método abdutivo de Holmes e Peirce

Em alguns artigos deste blog, descrevi sobre a tríade da raciocinação: a indução é o método experimental, necessita observação e testes quantitativos para validar hipóteses, chegando-se a uma lei universal; a dedução funciona a partir da lei universal estabelecida, aplicando-se esta lei em um caso específico, onde teremos a premissa maior (lei universal) e a premissa menor (caso específico); na abdução criamos uma nova hipótese não contida nas premissas, a partir da melhor ou mais simples explicação probabilística.

Excluindo os eventos narrativos que favorecem o detetive na ficção, é possível se fazer um estudo prático para o mundo real. Em uma lógica não monotônica, ou seja, uma lógica onde uma informação nova pode alterar uma teoria, Sherlock Holmes conjectura sobre fatos circunstanciais e vestígios, através do método abdutivo que ele próprio chama erroneamente de “dedução”. Holmes infere a partir de todos os detalhes possíveis que a realidade lhe oferece, onde até mesmo informações sobre as ferraduras do cavalo do cocheiro podem auxiliar na identificação do criminoso. Holmes, que parece se guiar pelos caminhos do positivismo lógico, e usando uma lupa que simbolize tal ideologia, “observa, conclui, infere, conjectura”.

Uma abdução carece de comprovação. Após o surgimento da hipótese na mente do observador, este deve testá-la, e somente assim saberá se sua teoria está correta. A abdução, segundo Peirce, “É um instinto que confia na percepção inconsciente das conexões entre os aspectos do mundo… É  a comunicação subliminar de mensagens… Nem a dedução nem a indução podem acrescentar o menor elemento que seja ao dado da percepção.” Abdução se trata de explicações possíveis para a realidade. De todas as explicações possíveis se deve testar a partir da melhor explicação, e se esta não estiver correta, faz-se teste após teste, na hierarquia da melhor para a pior explicação, excluindo abduções inválidas e adicionando novas se necessário.

Veremos este exemplo clássico: A regra universal falseável “todos os cisnes são brancos” deve ser utilizada como a possível verdade até que se descubra um cisne de outra coloração. Este exemplo é muito usado para referenciar Karl Popper e sua teoria de falseabilidade científica. Segundo Popper, a ciência ou o método científico não podem ser considerados detentores da verdade absoluta, devendo ser postos a prova, na tentativa não de confirmar uma hipótese mas sim negá-la. Desta forma se pode ter uma grande possibilidade de obter a verdade. Com a descoberta de cisnes negros, a proposição “todos os cisnes são brancos” se tornou falsa, sendo então “alguns cisnes são brancos” a proposição verdadeira.

Peirce afirmava que uma hipótese deve ser considerada uma pergunta, e as conjecturas são inúteis sem o teste de averiguação. O pensamento deve seguir o modelo socrático, uma dialética mental, onde o observador faz uma porção de perguntas a si mesmo a respeito da realidade. Usando o exemplo de “onde há fumaça há fogo”, “se vejo fumaça, o que pode causar a fumaça? O que a coloração da fumaça significa”? Ou o problema dos cisnes de Popper: “Nunca avistei um cisne de outra cor se não branco, seriam todos os cisnes brancos?” O método científico seja ele indutivo, dedutivo ou abdutivo, funciona de modo probabilístico e sua conclusão pode ser considerada uma possível verdade, até que se prove o contrário.

“Sou capaz de me guiar por milhares de outros casos semelhantes que me vem à memória”, diz Sherlock Holmes em A Liga dos Cabeças Vermelhas. De mesmo modo, Peirce considera uma analogia como sendo a combinação de abdução e indução. “Quando você exclui o impossível, aquilo que resta, mesmo improvável, deve ser a verdade”-SH. “Fatos não podem ser explicados por uma hipótese de modo mais extraordinário do que os próprios fatos, e de diversas hipóteses, deve ser adotada a menos extraordinária”- Peirce. Perceba a similaridade entre o homem real e o fictício. Não à toa, Peirce solucionou o furto de seu casaco e seu relógio em uma viagem de navio em 1879.

Holmes possui uma tendência interacionista-simbólica quando se trata de resolver crimes. Esta teoria sociológica parte do pressuposto de que as percepções individuais ditam ações e comportamentos, sendo o mundo físico não o único fator importante que molda a realidade. Utiliza-se a lógica das ações humanas aliada ao senso comum. O detetive tem conhecimento sobre o senso comum, mas não adere a ele, apenas o utiliza para tecer suas teorias acerca do comportamento humano em situações criminais.

Em O Vale do Medo, Holmes percebe a ausência de um dos halteres de musculação, tendo em mente que a maioria das pessoas ao possuir halteres, possui dois e não apenas um. Descobre-se que o criminoso havia utilizado o halter para afundar um importante pacote em um rio. Na mesma história, o criminoso planta uma pegada no parapeito de uma janela para parecer que esta foi sua rota de fuga. Esta simulação representa uma falsa realidade a qual dependerá do detetive considerá-la um signo real ou não, analisando todos os detalhes que a realidade fornece para confrontar os dados.

Por fim

Umberto Eco, semioticista e um dos autores deste livro, foi o escritor do best-seller “O Nome da Rosa”, de 1980, que se encontra em minha prateleira mas ainda não o li. O filme de 1986 é uma boa sugestão para os entusiastas da abdução. Sinto certo orgulho em dizer que tendo lido todas as sessenta histórias do detetive Sherlock Holmes, sendo um admirador do personagem desde os dez anos de idade, foi muito interessante ter lido este livro. Sobre o detetive Dupin de Edgar Allan Poe, até o momento não obtive a oportunidade de lê-lo, e suas menções neste livro são tão poucas que não considerei compartilhá-las aqui, me atendo apenas a Holmes e Peirce. O detetive mais famoso da literatura policial britânica e o pai da semiótica moderna seguem a mesma linha de raciocínio. Tanto este livro quanto os escritos de Conan Doyle são exemplares para o leitor que pretende se aventurar no mundo da indução, dedução, abdução e semiótica.

Appel

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2 comentários

  1. Interessante. Não conhecia o livro. A temática parece com o artigo de Carlo Ginzburg “Morelli, Freud e Sherlock Holmes: Indícios e método científico” que cita detetives, as interpretações de pegadas e o método científico.

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