A Magia da Crença parte 3

Para tornar meus artigos intitulados de “A Magia da Crença” em algo menos especulativo e mais palpável, apliquei os conceitos dos artigos anteriores de duas formas: Observei um ritual religioso repleto de “possessões” para descobrir os reais sistemas; Induzi três pessoas à acreditarem que uma residência estava tomada por forças paranormais, ao conduzir uma sessão espírita da Era Vitoriana através de truques de ilusionismo.

Observação de um Ritual Umbandista

Os indivíduos que futuramente naquela ocasião seriam possuídos, que chamarei aqui de Receptáculos, antes mesmo da iniciação do evento encarnavam acidentalmente seus “personagens”. Notava-se pelos movimentos dos braços que em alguns momentos eram balançados para trás do corpo, demonstrando que a possessão era puramente psicológica. Quando já possuídos, mantinham os braços para trás, contraídos.

Alguns dos Receptáculos mantinham cavanhaque e ou bigode. O diabo muitas vezes é representado, quando utilizando de pelos faciais, com cavanhaque e ou bigode. Uma das entidades principais naquela noite se chamava Tranca Rua das Almas, caracterizado de mesma forma. Existe então a possibilidade destes Receptáculos terem absorvido a informação e expressado de forma física inconsciente (o que não acredito) ou propositalmente (o que acredito).

Após a maioria já possuída, uma moça em transe não conseguia sozinha totalizar sua possessão. Foi quando uma senhora mais velha, portanto mais experiente, colocou a mão sobre seu peito, lhe dizendo algumas palavras no ouvido. Desta forma, a moça pôde concluir sua possessão.  Meu olhar analítico percebeu a hipnose usada.

Um dos Receptáculos principais na cerimônia estava fumando charuto com forte odor de maconha. Substâncias alcoólicas e outras desconhecidas por mim causavam o frenesi, alterando o tamanho da pupila de uma Receptáculo.

Conclusão

Fumaça, odores, mudança de voz, símbolos de magia, música, contrações musculares, estatuetas representativas de entidades, oferendas… Apenas sugestão hipnótica e substâncias psicoativas. Não posso chamá-los de fraudes pois suponho que estes Receptáculos realmente creem no evento, porém nenhum fenômeno sobrenatural ocorreu naquela noite.

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Imagens da Internet

Criação de Sessão Espírita Através de Truques de Ilusionismo

Objetivos

  • Reproduzir eventos mediúnicos com perfeição
  • Não ser pego em flagrante durante os truques
  • Trabalhar análise etiológica de fraudes paranormais
  • Trabalhar encenação teatral
  • Trabalhar o raciocínio e criatividade através de ilusionismo
  • Demonstrar que muitas manifestações mediúnicas são fraudulentas

Os truques não poderiam funcionar de forma tecnológica ou com ferramentas contemporâneas, mas sim a partir de meios comuns. Nem poderiam já ter sido inventados, pois o objetivo provinha de criar meus próprios métodos:

Vaso de vidro que cai:

Projetado por mim e construído em uma vidraçaria. Precisa ser “iniciado” antecipadamente, e dependendo do método, ele cairá em determinado tempo. O truque está no próprio design do vaso e carece de controlar quantidade e velocidade do fluxo de água, e calcular os centímetros de determinada parte do vaso em relação à borda da mesa a qual se encontra. Este é o único objeto que literalmente cai sozinho, com ajuda apenas da gravidade.

Pássaro decorativo com sinos tocando, porta abrindo sozinha, porta tremendo, gaveta abrindo e lâmpada balançando: 

O sistema por trás destes se mantinha em frente aos olhos dos convidados, mas por conta de sua estrutura e facilidade de “camuflagem”, não foi visto. Um método simples porém estratégico foi usado, manipulado por um elemento furtivo do lado de fora da casa.

Violino tocando sozinho dentro da case (estojo) fechada:

Semelhante ao sistema acima, porém só pode ser realizado enquanto imerso na escuridão. Foi manipulado por mim.

Preparação do ambiente foi de vital importância. A lâmpada acima da mesa era a única que poderia estar acessa, pois sua coloração e posição acobertava parte dos truques. A cabine mediúnica constituída na sala de estar foi usada também como desvio de atenção. Parte da decoração foi alterada, como as cadeiras giratórias trocadas por cadeiras comuns para limitar a liberdade de movimentação dos convidados.

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Objetos usados no ritual

Evento

Três estudantes de computação, informática e tecnologia, maiores de 18 anos, esperavam testar se uma sessão espírita da Era Vitoriana (Séance, onde ocorriam “fenômenos” como mesas girantes e objetos em movimento) poderia evocar as Irmãs Fox, originadoras do Espiritualismo, ou apenas causar sensações psicológicas. Mesclando fatos com mentiras criei um ritual falso, sendo aplicado no dia 7 de novembro de 2015, às 23h30, uma semana após o Halloween. Entramos na casa com a luz acesa para que sentássemos, e então foi apagada. Acendemos a vela, fizemos uma breve cerimônia, apagamos a vela.

Teve início o réquiem silencioso. Após minutos na escuridão, o pássaro começou a sacudir seus sinos, próximo a mesa a qual estávamos. A luz de minha lanterna refletida no objeto movendo-se desacompanhado deslumbrou os convidados. A seguir, o vaso de vidro arrebentou-se ao chão, em um cômodo repleto de utensílios domésticos, à portas fechadas, quase hermético.

Os participantes já discutiam sobre sair da casa, quando alguém perguntou se a porta de um dos quartos estava entreaberta, e no mesmo instante, enquanto todos olhavam fixos para a porta, esta se abriu de maneira cinematográfica, causando desordem, tensão e medo. Fomos então para a cabine mediúnica onde jazia o violino, dentro da própria case (espécie de maleta onde se guarda o instrumento) fechada, embrulhada em lençol preto, impossibilitando qualquer acesso.

Esperamos alguns segundos, e ouviu-se o som do instrumento. Os participantes queriam ouvir mais, teorizavam, alternavam a posição ritualística das mãos, perguntavam se ali havia uma presença, abriram e analisaram tanto a case quanto o violino, permanecendo crentes de que havíamos evocado seres do além. O ritual ao todo durou cerca de 20 minutos. Acendemos então as luzes e discutimos o ocorrido.

Após a revelação verbal da fraude, meus convidados não acreditaram que tais eventos seriam possíveis por mãos humanas, mantendo convicção na manifestação espiritual, até mesmo quando lhes apresentei uma anotação referente aos truques. Apenas na terceira tentativa, onde o elemento furtivo surgiu de seu esconderijo, que os indivíduos aceitaram a verdade. Um dos participantes admitiu ter sentido uma presença paranormal, aceitando depois que essa percepção foi puramente psicológica.

Inicialmente, a ideia era conseguir uma senhora com aspectos de seriedade e experiência para encenar uma médium, mas foi difícil arranjar uma candidata. Também seriam seis convidados, mas metade desistiu. O projeto precisou de apenas um mês para ficar pronto, custando em torno de setenta reais. Embora nem todos os truques tenham se orquestrado perfeitamente, o objetivo e impacto foram alcançados com maestria, visto que esta foi a primeira vez que crio tal evento, ressaltando que não possuo habilidades de prestidigitação. O evento não se caracteriza como experimento social ou científico formal, não havendo questões sistematizadas ou detalhes específicos (estatísticas, quantidade significativa de participantes, diagramas, etc), pois não almejei este propósito.

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Cabines Mediúnicas

Conclusão

Episódios que causaram pavor e pareciam imperscrutáveis aos olhos de meus convidados não passavam de métodos elaborados com instrumentos simples, comprovando de forma prática o óbvio: Existem manobras que qualquer pessoa pode usar para deturpar a percepção alheia através da manipulação secreta de elementos comuns.

Conclusão Geral 

Para encerrar esta trilogia de artigos, dissertarei sobre a importância das temáticas descritas ao longo de minhas buscas pela verdade. O propósito nunca foi desmerecer os conceitos ontológicos religiosos (embora consequentemente isto ocorra), mas sim inserir os métodos empíricos em questões não-científicas, para averiguar se estas são ou não verossímeis. A inclinação particular para com tais crenças permanece negativa por conta de suas características não fundamentadas.

A partir da observação, percebo que nenhum evento chamado por muitos de “paranormal” pode ser considerado especial, por dois motivos: Não existem provas concretas de que tais eventos sejam sobrenaturais; Não existe poder paranormal praticado por religioso, médium ou adivinho, que já não tenha sido feito por artistas circenses, ilusionistas ou semelhantes ou que não seja explicado cientificamente. Mesmo pessoas sem perícia na área do charlatanismo conseguem resultados surpreendentes, e meu evento é a prova disso.

Appel

 

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